À 6ª feira...Estudos&Estórias - Inverno ameno Itália, com Espanha e Irlanda de regresso à normalidade...

À 6ª feira... Estudos&Estórias - 2012-02-03


Inverno ameno Itália, com Espanha e Irlanda de regresso à normalidade...

O inverno prometia ser duro para a dívida pública de Itália, mas está a ser ameno. Espanha e Irlanda também estão a regressar gradualmente à normalidade, com impacto positivo nos mercados acionistas. Ainda há poucos meses, consoante o outono avançava iam caindo folhas e folhas que pronunciavam a necessidade da bota da Europa ser o próximo a solicitar ajuda internacional, elevando os juros soberanos para níveis recorde da última década, acima dos 7% na generalidade das maturidades. Itália mudou de liderança, com o Presidente demissionário Silvio Berlusconi a dar lugar a Mário Monti, depois de não ter conseguido maioria absoluta na aprovação das medidas de execução orçamental para 2012 acordadas com a União Europeia. Os investidores mudaram o sentimento!

Nos últimos dois meses, a estrutura da yield curve da dívida pública italiana regressou à normalidade, após a deformação entre setembro e novembro do ano passado, período em que os credores exigiram juros cada vez mais elevados para financiar o país, em especial para as maturidades mais curtas. Neste momento, a forma da curva é muito semelhante à que se registava há um ano, e mesmo à da Alemanha, ainda que num nível de juros superior, devido à conjuntura atual da zona euro. No gráfico abaixo denota-se ainda que atualmente a Alemanha está a pagar juros inferiores aos de há um ano.

Yield Curve de Itália vs. Alemanha
Fonte: Millennium investment banking, Bloomberg

Como referimos em finais de novembro (em 2012, o ano D para Itália), cerca de 20% da dívida pública italiana vencer-se-á este ano.

Distribuição da maturidade da dívida soberana de Itália
Fonte: Millennium investment banking, Bloomberg

Até ao final de abril, o país terá de fazer o rollover (refinanciamento) de quase 50% da dívida que atinge a maturidade este ano. As emissões de janeiro foram um sucesso, faltam as restantes.

Vencimento da dívida soberana italiana em 2012
Fonte: Millennium investment banking, Bloomberg

As emissões de dívida são sempre um teste à capacidade de financiamento do país. A perceção de uma degradação na qualidade da dívida leva a um aumento dos juros exigidos pelos credores. Foi por este motivo que no último outono Itália entrou nos radares dos investidores. Mas o cenário pode mudar nos primeiros quatro meses de 2012!

Observando a maturidade das emissões dos títulos de dívida soberana de Itália que vencem este ano, constatámos que cerca de 40% são Bilhetes do Tesouro a 6 e 12 meses, e os investidores estão agora a exigir juros menores que à data da emissão (dados médios) dos mesmos. E mesmo para os prazos mais longos a diferença entre a yield atual e a registada à data da emissão tem vindo a diluir-se.

Fonte: Millennium investment banking, Bloomberg

A manter-se esta tendência o país deve continuar a conseguir financiar-se nos mercados, sem alteração significativa dos juros cobrados quando tiver de fazer o rollover, efeito que já se tem sentido neste mês de janeiro. Nos BT?s e em OT?s com prazos iguais ou superiores a 15 anos deve mesmo beneficiar de uma redução dos custos se pretender reemitir com a mesma maturidade.

Analisando a estrutura de taxas de juro da dívida soberana de Espanha e Irlanda denota-se igualmente um regresso gradual à normalidade, em especial no caso espanhol, onde para além da yield curve estar a ganhar uma forma típica, os juros exigidos pelos credores são agora menores que há um ano, à semelhança do visto acima para a Alemanha. Os financiamentos à Irlanda denotam ainda alguma preocupação para maturidades inferiores a três anos, mas nos restantes prazos há um alívio notório dos juros soberanos.

Yield Curve da Espanha
 
Yield Curve da Irlanda
Fonte: millennium investment banking, bloomberg

Numa nota final, os dados apresentados são claramente positivos para os mercados de ações, pois acalma os receios de contágio da crise da dívida a outros países da periferia, não obstante os sinais de contração económica poderem retirar algum fulgor, uma vez que as estimativas atuais apontam para que a zona euro esteja em recessão em 2012 e, no caso das economias de Itália e Espanha, o FMI previu recentemente que continuem em contração em 2013.

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Ramiro Loureiro, Analista de Ações
Millennium investment banking

2012-02-03


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